
Acalento
Ao escrever, eu namoro, flerto, me apaixono.
Por quem? Por elas, as palavras.
Já perceberam como elas chegam?
Afoitas, apressadas, querendo passar à frente umas das outras.
Delas, sou fã, parceira e amiga.
Pois venham, achem seus lugares, enfeitem, enfeiem, traduzam, confundam.
Ahhh, as palavras…
Com o seu poder, destroem impérios, apaziguam corações quebrados, animam os desesperados, fazem felizes os apaixonados.
E os sons? Variados, engraçados, escrachados…
O ritmo? Esse é um capítulo à parte!
Arranham as letras, como a palavra arara, por exemplo,
ou são sedutoras, como veludo.
A intensidade de grito, a elegância de néctar.
Acho surpreendente também como elas se tornam moda, autoridade, prestígio.
Vou exemplificar com o que tenho ouvido: “ponto focal”.
Alguém poderia me explicar o que seria um ponto não focal?
Me lembra muito o “estado da arte”, que em época passada, era uma expressão obrigatória no linguajar de quem queria soar moderno, no mundo corporativo.
Mas essas não me ocupam a mente.
Eu gosto mesmo daquelas que me acalentam.
Falando nisso… olhem a lindeza da palavra acalentar!
Ela tem um som que embala, um jeito de colo, um gesto de abrigo.
Parece que, ao pronunciá-la, o mundo sossega — e o coração também.













